Investimentos de empresas estrangeiras colocam região na disputa global por terras raras
02.10.2026
Três mineradoras australianas adquiriram projetos de exploração na região.A busca global por minerais usados em tecnologias de energia limpa e equipamentos de alta tecnologia colocou o Sul de Minas no centro da corrida internacional pelas terras raras. Na região do Planalto de Poços de Caldas, várias empresas estrangeiras mantêm projetos de pesquisa, exploração e desenvolvimento de minas em diferentes estágios.
Na quarta-feira (30), a Lynas Rare Earths anunciou um acordo para adquirir a Meteoric Resources por cerca de A$ 968 milhões (aproximadamente R$ 3,5 bilhões, na cotação atual). Com a operação, a empresa australiana passará a controlar o projeto Caldeira, de terras raras, em Caldas(MG).
A australiana Meteoric foi uma das primeiras empresas estrangeiras a fazer aquisição de projetos de exploração de terras raras na região, juntamente com a também australiana Viridis Mining and Minerals, em 2023. Ambos os projetos estão em fase de licenciamento ambiental e têm previsão de iniciar operação em 2028.
Em abril deste ano, outra empresa australiana, a Power Minerals, concluiu a compra do projeto de terras raras "Morro do Ferro", em Poços de Caldas (MG), por cerca de R$ 80 milhões e segue fazendo pesquisas de exploração.
A região também passou a despertar o interesse de empresas de outros países que buscam garantir acesso futuro aos minerais estratégicos, seja por meio de aquisição de área de exploração ou da compra dos minerais.
Segundo dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), até 2025, havia 1.882 autorizações para pesquisa de terras raras no Brasil, sendo que 361 eram em Minas Gerais. Cerca de um terço dos pedidos mineiros estava concentrado na região de Poços de Caldas.
A movimentação ocorre em um momento de disputa internacional pelo controle da cadeia de terras raras e quebra do monopólio da China, que concentra cerca de 70% da produção mundial e quase 90% do processamento e da fabricação de ímãs. Estados Unidos e União Europeia estão na frente dessa corrida por fornecedores destes minerais críticos.
O Planalto de Poços de Caldas, que engloba áreas de Poços de Caldas, Caldas e Andradas, em Minas Gerais, e de Águas da Prata, em São Paulo, reúne características consideradas favoráveis à ocorrência de terras raras. A estrutura geológica da região foi formada a partir de atividades vulcânicas há milhares de anos. A caldeira resultante deste vulcão extinto possui depósitos em argilas iônicas, nas quais os elementos são abundantes e podem ser encontrados próximos à superfície.
A jazida tem se destacado mundialmente pela sua extensão e alta concentração de terras raras. Outro diferencial é que os elementos estão em argila iônica, o que permite a exploração em minas a céu aberto, o que torna o processo mais fácil e mais barato que em outras minas existentes fora do Brasil.
Três grupos australianos têm projetos já estruturados na região. A Meteoric desenvolve até o momento o Projeto Caldeira, em Caldas, que está em negociação com a Lynas Rare Earths. O empreendimento pretende explorar uma área de 425 hectares, que possui recursos minerais estimados em 128 milhões de toneladas e, segundo a empresa, reúne 802 mil toneladas de óxidos de neodímio e praseodímio e 41 mil toneladas de óxidos de disprósio e térbio. A Lybas estima uma produção média anual de 3.862 toneladas de NdPr (neodímio e praseodímio) e 127 toneladas de DyTb (disprósio e térbio) ao longo da vida útil do projeto.
A Viridis Mining and Minerals desenvolve o Projeto Colossus, em Poços de Caldas em uma área de 373 hectares. Quando estiver totalmente implantada, deve movimentar 5 milhões de toneladas de argila por ano, gerando uma média de 2.843 toneladas anuais de neodímio-praseodímio (NdPr), em uma expectativa de 40 anos de atividade no local. A empresa prevê investimento de cerca de R$ 1,7 bilhão até o início do funcionamento da mina. No quarto trimestre de 2025, anunciou outros R$ 132,5 milhões em investimentos, incluindo recursos destinados à aquisição de área, um laboratório de reciclagem de superímãs e a um laboratório de extração de terras raras.
A Power Minerals adquiriu, por cerca de R$ 80 milhões, a empresa responsável pelo projeto Morro do Ferro, em Poços de Caldas. Em 2026, a companhia australiana anunciou um primeiro alvo de exploração com potencial estimado entre 9,2 milhões e 10,7 milhões de toneladas e iniciou uma nova campanha de sondagem.
Ao mesmo tempo, a expansão da atividade aumenta a necessidade de avaliar os impactos ambientais e sociais dos projetos. No Planalto de Poços de Caldas, por exemplo, os projetos estão em áreas próximas a comunidades, unidades de conservação e, no caso do Caldeira, a uma antiga unidade de mineração de urânio das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), que passa por processo de descomissionamento e abriga cerca de 12 mil toneladas de resíduos radioativos.
A proximidade levantou questionamentos sobre riscos radiológicos por parte da comunidade e organizações de proteção ambiental, o que levou a uma determinação da Justiça Federal para uma nova avaliação técnica sobre os riscos do empreendimento.
Em setembro, o subprocurador-geral do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União, Lucas Rocha Furtado, também solicitou que o TCU realize uma auditoria operacional sobre a exploração de terras raras no Planalto de Poços de Caldas, envolvendo os projetos Caldeira e Colossus e os impactos cumulativos desses projetos sobre a água, o solo e a saúde pública.
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