Terras raras: Brasil dá passo inédito para produzir ímãs com minério nacional
02.03.2026
Material entregue pela Meteoric foi retirado de testes de processos de extração.O Brasil deu um passo inédito na disputa global por terras raras, minerais estratégicos usados na fabricação de carros elétricos, turbinas eólicas e eletrônicos. Pela primeira vez, um laboratório brasileiro começou a testar a produção de ímãs de alta potência com matéria-prima extraída no próprio país, na busca de criar uma cadeia produtiva nacional desses materiais, hoje dominada por outros países.
O lote de 20 quilos de carbonato de terras raras entregue pela mineradora Meteoric ao Centro de Inovação e Tecnologia para Ímãs de Terras Raras (CIT Senai ITR), em Lagoa Santa (MG), marca o desenvolvimento das pesquisas com material nacional.
É o primeiro lote de carbonato obtido a partir de extração em terras brasileiras que o projeto recebe. O laboratório costuma usar material importado da China.
Carbonato de terras raras é o resultado da lixiviação (processo de lavagem) da argila iônica que contém os minérios e é um composto intermediário, antes da separação dos elementos de terras raras.
O material destinado ao CIT Senai ITR foi retirado dos testes de processos de extração realizados na planta piloto da mineradora inaugurada em dezembro, em Poços de Caldas (MG). De acordo com a empresa, a cada 600 kg de argila são retirados 2 kg de carbonato.
O carbonato foi obtido a partir de amostras de argila iônica coletadas durante pesquisa sobre terras raras na região do Planalto Vulcânico de Poços de Caldas. A empresa está em fase de licenciamento para a construção da mina.
Desenvolvimento para o futuro
O CIT Senai ITR é a primeira fábrica de ímãs permanentes da América Latina e faz parte do projeto MagBras, uma aliança formada por empresas, startups, centros de inovação, instituições de pesquisa, universidades e fundações de apoio que tem como objetivo estabelecer uma cadeia produtiva completa e permanente de terras raras no país, da matéria-prima mineral até o ímã final, que são essenciais para a montagem de motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, smartphones, computadores, equipamentos de ressonância magnética e componentes industriais de automação
Segundo o coordenador do CIT Senai ITR, André Luis Pimenta de Faria, a entrega destes 20 quilos de carbonato representa um passo concreto para o avanço das pesquisas.
"Com essa remessa, o projeto passa a ter a oportunidade de trabalhar com matéria-prima de origem nacional nas etapas de obtenção de óxidos puros de terras raras, redução para metal, produção de liga e fabricação de ímãs de NdFeB (neodímio-ferro-boro). Isso é extremamente relevante porque permite validar, em escala piloto, a rota tecnológica utilizando terras raras brasileiras", afirmou.
A entrega do material faz parte de um acordo de parceria de cinco anos, assinado pelo CIT SENAI ITR e pela Meteoric, em 2024.
Desde a sua inauguração em 2025, o ITR também recebeu amostras de óxidos puros fornecidos pela Viridion, empresa do grupo da mineradora Veridis, instalada em Poços de Caldas, retirados a partir de ímãs recolhidos no Brasil e reciclados na Irlanda, e uma amostra de oxalato da St George, também a partir de minério nacional.
Ao mesmo tempo, o centro de tecnologia continua trabalhando com material importado da China, até que o Brasil consolide sua própria produção em escala industrial.
"É importante para garantir a continuidade dos projetos, comparabilidade técnica e segurança de fornecimento. O que está sendo construído neste momento é a base tecnológica e industrial para que, no futuro próximo, o país possa transformar seus próprios minerais estratégicos em produtos de alto valor agregado, como os ímãs permanentes utilizados em motores elétricos, geração de energia e mobilidade elétrica", disse o coordenador.
Material de alta qualidade
Segundo a Meteoric, as análises do carbonato produzido na sua planta piloto indicam que o material retirado do Planalto Vulcânico de Poços de Caldas tem alto teor de terras raras.
“A gente pega uma argila que tem 0,4% de terras raras e transforma num carbonato que é 98% de terras raras. A qualidade do carbonato que nós estamos gerando mostra que o Planalto de Poços de Caldas é um dos melhores depósitos do mundo. A gente está atingindo recuperações que vão até 78%, 79%. A maioria das minas no mundo tem uma recuperação de 50%”, afirma o diretor executivo da Meteoric, Marcelo Carvalho.
O próximo desafio da Meteoric é desenvolver a separação dos minerais de terras raras a partir do carbonato, dando mais um passo no desenvolvimento de uma cadeia produtiva nacional.
“Nos comprometemos com os governos federal e estadual e vamos iniciar o processo de estudos usando nosso carbonato. Uma das importâncias de realizar os estudos de separação é dar mais um passo e, quem sabe, o resto da cadeia também não se desenvolva e a gente venha a produzir ímãs no país”, disse Carvalho.
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